Para qualquer jovem no inicio do século XXI a droga é uma constante da vida. Não é difícil, para muitos de nós, enumerar casos onde as promessas de um mundo de glamour e sensualidade bailaram perante os nossos olhos tal como sereias que encantam sussurrando canções de amor e venturas infinitas. Muitos de nós tal como Ulisses, enfrentamos as demoníacas ninfas e ultrapassamos as nossas provas...muitos deixaram-se aliciar. Também eu faço parte, felizmente, do grupo que superou os obstáculos. Também eu fui aliciado, também eu pertenci a grupos, também eu vi namoradas e melhores amigos consumirem e entrarem numa estrada para onde eu não os podia seguir. Também eu tive problemas e dissabores ao longo da minha(ainda curta) vida, também sofri, também me questionei, e em todos estes momentos sempre houve um lobo com pele de cordeiro que me prometia a felicidade infinita. Como todos os jovens fiz a travessia do deserto, sobrevivi e depois de nela ter perdido tanta gente e conhecer outra tanta gerei a minha própria opinião sobre essa amante proibida: A DROGA. Combater o problema da droga é muito parecido com o combate á poluição de um rio. Podemos fazer muitas estações de tratamento e alegrarmo-nos com o nosso esforço pela preservação da natureza, mas ele será inútil se não combatermos as fontes dessa poluição. Só assim com uma solução integrada resolvemos o problema de uma vez por todas e não perpetuamos com mais ou menos remendos uma solução de segunda escolha que mais não faz que disfarçar o cheiro. Mas o problema continua lá!! Perante uma fuga de água devemos antes de tapa-la de encontrar a torneira.
Antes de mais é preciso clarificar que a toxicodependencia é uma doença crónica, mas totalmente diferente de todas as outras. As diabetes e deficiências motoras são doenças do corpo que alteram as nossas vidas, a toxicodepêndencia é uma doença da vida que altera o próprio ser. No caso da droga não chega tratar o corpo se não lhe podermos devolver a vida. A criação de centros de apoio tentam trazer alguma dignidade a uma vida de miséria, mas pouco mais fazem do que esconder da vista do resto da sociedade imagens de degradação. A minha experiência de vida fez-me perder toda a crença num tratamento. A droga é uma doença crónica e incurável! Investir energias no seu tratamento é como atirar-nos de cabeça a uma parede esperando que a nossa dor seja suficiente para a fazer vergar...mas não é.
Deixem-me contar então um episódio pessoal. Eram dois irmãos, onde o mais velho convenceu o mais novo a experimentar. Era só uma vez diziam eles. Estava tudo sob controle, mas afinal não estava. O vicio corroeu-os, e a vontade de mais uma dose tornara-se insuportável. O pai, pessoa que muito lutou na vida para chegar onde está, pouco pôde fazer quando a ânsia de mais uma “pica” tornou os seus filhos num bando de ladrões. Claro que foram presos claro que foram acompanhados, por médicos, psicólogos, etc. O Pai, como qualquer pai que se preocupa, gastou muitas das suas poupanças em tratamento para os filhos. Quando saíram tinham um emprego bem remunerado á sua espera. Tudo parecia bem, mas não durou muito tempo até o inferno voltar. Neste momento já é o 3º tratamento a que cada um se submete e pelo que sei mais uma vez eles roubaram no trabalho e mais uma vez voltaram a roda viva do mercado da branca, onde tudo vale até tirar olhos.
Não vou dizer que este é um caso como muitos outros. A grande maioria tinha o quê no final do tratamento? Um emprego? Não somente a miséria, somente a depressão, somente o fundo do poço de onde eles já não conseguiam sair. Na sociedade portuguesa não há rotulo pior que o de drogado. Um tretaplégico fica incapacitado para a vida mas a droga é uma auto estrada para um mundo de criminalidade que incapacita a confiança dos outros. No final da linha só resta o voltar a uma vida de marginalidade. Para mim o caminho está exclusivamente na prevenção. Mas uma prevenção que passe pelo desmantelar das redes de traficantes, que acabe com os lucros elevadíssimos de um negócio que brinca com a vida das pessoas, por uma acção de informação que desmascare as mentiras de um mundo belo, com o “glamour” da fama, que não esconda ou censure as imagens da degradação humana, que mostre a realidade nua e crua, que chame as coisas pelos nomes e que não faça comparações com o café ou o tabaco como tudo fosse o mesmo só porque um especialista qualquer o disse, que não use eufemismos, que seja duro, cruel, que aterrorize com a realidade, com aquilo que é a verdade e sim que crie o MEDO naqueles que querem ou são tentados a consumir. Pois não se iludam, o primeiro passo para entrar no labirinto tortuoso da dependência é sempre dado pelo próprio e por mais ninguém. Pressão é algo que todos nós sentimos na nossa vida pessoal e profissional num mundo globalizado como o de hoje a situação não tem tendência a melhorar. O medo é um bom aliado mas nada consegue sem a componente da formação. Os professores devem falar abertamente sobre estes problemas, chamar os traficantes e os consumidores pelos nomes. Mas mais importante de tudo saber criar sinergias ao longo de todo o sistema de ensino de forma a criar formas de cada um superar os seus problemas, de encarar as suas duvidas, dos jovens se abrirem e confessarem os seus medos. Só assim daremos luz a jovens e a adultos que sabem que não precisam de recorrer a químicos como escape dos problemas, como alienação de uma realidade que não conseguem entender ou querem pertencer.
Informação, segurança e formação, são para mim os 3 pilares da prevenção e o principio do fim do flagelo. Acabar nas escolas com o “cool” que é fumar uns charros, com a sensação “in” de tomar umas pastilhas numa discoteca, só assim podemos estancar esta verdadeira hemorragia...mas já nada podemos infelizmente fazer em relação ao sangue que já foi derramado. Mas se nada for feito para parar a hemorragia muito mais ainda se perderá. Muitos querem tirar as pessoas da droga, eu prefiro impedir que elas entrem. Durante pelo menos 4 anos todos os projectos de prevenção foram postos de lado, o aumento do consumo de drogas em todo o pais é o resultado disso mesmo. A droga anda impune e é sinal de rebelião...mas a única guerrilha que faz é em prol da destruição. Defendo que se aplique mais dinheiro em sistemas integrados de prevenção (com policia, escola, sociedade em geral) em vez de salas de chuto controladas ou centros de tratamento. A droga não deve ser encarada com mais nada do que uma doença crónica incurável e mortífera e deve ser tratada como tal. Se só com protecção e vacina se combate a malária ou o ébola então é assim que devemos concentrar os nosso esforços para combater o problema da droga. As minhas ideias aqui ditas podem parecer frias e insensíveis, mas como já disse antes está é também uma realidade que eu conheço. Foi ai que aprendi que por vezes o punho fechado protege mais que a mão aberta. Pedro Magalhães |